Samuca e a Selva transforma possível despedida em celebração no álbum “Pra Gente Se Acabar”

Quinto disco do coletivo paulista reúne 13 faixas, participações de Carlos Dafé, Silvia Machete e Abacaxepa e transforma as incertezas sobre o futuro da banda em música, dança e reflexão.
Depois de mais de uma década de estrada, Samuca e a Selva decidiu olhar diretamente para uma pergunta que vinha rondando o coletivo: até onde é possível manter uma banda formada por dez músicos em atividade em um mercado cada vez mais voltado aos artistas solo?
A resposta não veio em forma de comunicado de despedida, mas de música. Nesta terça-feira (23), o grupo paulista apresenta “Pra Gente Se Acabar”, seu quinto álbum de estúdio, um trabalho que transforma a possibilidade de um fim em motivo para celebrar a trajetória construída até aqui.
O título carrega justamente essa ambiguidade. Pode ser uma despedida, um convite para a festa ou simplesmente a decisão de viver intensamente enquanto ainda há tempo. Para Samuca e a Selva, as três interpretações convivem ao longo das 13 faixas.

Um disco sobre o fim — mas também sobre a vida
Formado por dez músicos e com mais de 11 anos de trajetória, o coletivo enfrenta uma questão que vai além de sua própria realidade. A dificuldade de manter grandes formações na estrada se tornou o ponto de partida para um álbum que também reflete sobre transformações sociais e o sentimento de viver em um mundo marcado por crises.
Mudanças climáticas, guerras, pandemias, avanço da inteligência artificial, polarização política, pós-verdade e individualismo aparecem como parte do cenário conceitual de “Pra Gente Se Acabar”.
Mas o álbum não se entrega ao pessimismo.
A banda escolhe transformar a possibilidade do fim em baile. A expressão “pra gente se acabar” aparece justamente nesse sentido brasileiro de entrega total à festa, à dança e à celebração.
É nesse contraste que o trabalho se sustenta: existe o medo do encerramento, mas também existe a vontade de aproveitar cada instante.
Do balanço ao mergulho emocional
Musicalmente, o novo trabalho reúne a experiência acumulada pelo grupo durante mais de uma década. A sonoridade transita pela música popular brasileira, ritmos latinos e jazz, mantendo a formação numerosa como uma das principais características da banda.
Entre as referências que atravessam o disco estão nomes como Marku Ribas e Sade, enquanto as letras passam por assuntos como saúde mental, especulação imobiliária, paixões, saudade, angústias e as contradições do presente.
O resultado é um álbum pensado para funcionar em diferentes camadas: dá para dançar, mas também existe espaço para ouvir com atenção e perceber os detalhes espalhados pelas canções.
A produção é assinada por Marcos Maurício, parceiro antigo da banda, que já havia trabalhado com o grupo em “Madurar”, álbum de estreia indicado ao 28º Prêmio da Música Brasileira, e em “Ditados Populares Dançantes”, que apareceu entre os 50 melhores discos do ano na lista da APCA.
A novidade desta vez é que Samuel Samuca também assume a coprodução, dividindo a função com Marcos Maurício.
Carlos Dafé abre o baile
A primeira faixa apresentada ao público é “O Tempo Leva”, um boogie brasileiro que transforma a passagem do tempo em tema central.
Para dividir os vocais com Samuca, o grupo convidou Carlos Dafé, um dos grandes nomes do soul brasileiro. A participação cria um encontro entre diferentes gerações da música nacional e reforça a ideia de que o tempo também pode ser fonte de aprendizado, cura e tranquilidade.
A presença de Dafé ganha ainda mais significado dentro do conceito do álbum, que olha para o passado sem deixar de questionar o que vem pela frente.
Silvia Machete e Abacaxepa entram na Selva
As participações especiais continuam em outras faixas do disco.
Em “Teia de Aranha”, a banda recebe Silvia Machete, em uma performance que explora a personalidade irreverente da artista e aparece entre os momentos mais marcantes do repertório.
Já “Flor do Mistério”, parceria de Samuca com Felipe El, ganha as vozes de Bruna Alimonda, Carol Cavesso e Rodrigo Mancusi, integrantes do Abacaxepa.
Além da participação na faixa, o trio também aparece nos backing vocals de todo o álbum, funcionando como uma espécie de coro ao longo da experiência sonora.
E existe ainda uma participação especialmente afetiva logo na abertura.
A voz que vem da família
Antes mesmo da primeira faixa oficial, o álbum começa com “Bença”, uma introdução bônus interpretada por Dona Deborah, avó de Samuca, aos 93 anos.
A presença dela tem um significado que vai além da música. Segundo o vocalista, foi justamente a avó quem o inspirou a cantar.
Por isso, colocar sua voz na abertura do disco transforma “Bença” em uma espécie de passagem simbólica para todo o conceito de “Pra Gente Se Acabar”.
Uma bênção para começar — e talvez também para encerrar um ciclo.
Um álbum feito no tempo e na coletividade
O processo de criação durou 11 meses e seguiu uma filosofia simples: “menos produto, mais arte”.
O grupo começou o projeto a partir de uma conversa coletiva de aproximadamente seis horas, reunindo os integrantes e o produtor Marcos Maurício para discutir o futuro da banda, as possibilidades financeiras e a disponibilidade de cada músico.
Durante o processo, o percussionista Matheus Prado deixou o grupo para se dedicar aos próprios projetos, enquanto Dominique Vieira chegou para integrar a formação.
A gravação aconteceu na casa de Marcos Maurício, em um processo descrito pela banda como artesanal, marcado por madrugadas de gravação, escuta, ajustes e pesquisa de referências.
Essa proposta também aparece na parte visual. A capa é uma pintura a óleo do artista plástico SANTVS, que mistura elementos ligados à fé, ao medo, ao sagrado, ao profano, ao fim e à festa.
As fotografias são de Kim Costa, enquanto Laercio Lopo, diretor de arte da banda desde 2023, assina a diagramação e a identidade visual.
O último baile ganha imagens
A experiência de “Pra Gente Se Acabar” também ultrapassa o áudio.
Cada uma das 13 faixas ganhou um visualizer, formando uma espécie de narrativa audiovisual sobre um grande baile que representa a própria sociedade.
Os vídeos apresentam diferentes personagens e situações, explorando contrastes como virtude e decadência, medo e esperança, luxo e pobreza.
A direção criativa é de Bruna Massarelli e Júlio Viela, com produção da Outros Filmes, direção de Manoel Marques da Costa, fotografia de Luiz Maudonett e figurinos de Mayna Pozzi.
Os visualizers estão disponíveis no canal da banda no YouTube.
O que vem depois?
É justamente aqui que o álbum ganha sua camada mais delicada.
O futuro de Samuca e a Selva ainda não está definido. A possibilidade de encerramento existe, mas o grupo pretende aproveitar o ciclo de lançamento para conversar, ouvir os fãs e trocar ideias com outros artistas e bandas.
A experiência de produzir o álbum, inclusive, acabou aproximando ainda mais os integrantes.
Depois de mais de uma década de shows, suor, dança e “pélvis solta”, o coletivo agora encara o próprio futuro sem esconder as dificuldades.
Se “Pra Gente Se Acabar” será realmente o último capítulo, ainda não se sabe.
Por enquanto, a banda escolhe fazer aquilo que sempre soube fazer: transformar música em encontro e o caos em festa.
E, enquanto houver canção, talvez ainda exista um novo baile esperando para começar.

Tracklist — “Pra Gente Se Acabar”
- Bença — faixa bônus de introdução, com Dona Deborah
- O Tempo Leva feat. Carlos Dafé — Samuel Samuca
- Esse Tempo Todo / Apedrejado — Allan Spirandelli / Samuel Samuca
- Sobre a Natureza das Coisas — Samuel Samuca
- Não É Só Sobre Você — Samuel Samuca
- Flor do Mistério feat. Abacaxepa — Felipe El / Samuel Samuca
- Teia de Aranha feat. Silvia Machete — Lucas Bernoldi
- Pião — Samuel Samuca
- Se Eu Tô, Eu Tô — Allan Spirandelli
- Baila Comigo Meu Irmão — Samuel Samuca
- Vem Verde Perto — Léo Malagrino
- Rio e Feito um Rio Choro — Samuel Samuca
- Saia — Samuel Samuca
- Pra Gente Se Acabar — Samuel Samuca (Bônus)


