1 de outubro de 2026

Samuca e a Selva transforma possível despedida em celebração no álbum “Pra Gente Se Acabar”

Foto: Divulgação

Quinto disco do coletivo paulista reúne 13 faixas, participações de Carlos Dafé, Silvia Machete e Abacaxepa e transforma as incertezas sobre o futuro da banda em música, dança e reflexão.

Depois de mais de uma década de estrada, Samuca e a Selva decidiu olhar diretamente para uma pergunta que vinha rondando o coletivo: até onde é possível manter uma banda formada por dez músicos em atividade em um mercado cada vez mais voltado aos artistas solo?

A resposta não veio em forma de comunicado de despedida, mas de música. Nesta terça-feira (23), o grupo paulista apresenta “Pra Gente Se Acabar”, seu quinto álbum de estúdio, um trabalho que transforma a possibilidade de um fim em motivo para celebrar a trajetória construída até aqui.

O título carrega justamente essa ambiguidade. Pode ser uma despedida, um convite para a festa ou simplesmente a decisão de viver intensamente enquanto ainda há tempo. Para Samuca e a Selva, as três interpretações convivem ao longo das 13 faixas.

Foto: Divulgação

Um disco sobre o fim — mas também sobre a vida

Formado por dez músicos e com mais de 11 anos de trajetória, o coletivo enfrenta uma questão que vai além de sua própria realidade. A dificuldade de manter grandes formações na estrada se tornou o ponto de partida para um álbum que também reflete sobre transformações sociais e o sentimento de viver em um mundo marcado por crises.

Mudanças climáticas, guerras, pandemias, avanço da inteligência artificial, polarização política, pós-verdade e individualismo aparecem como parte do cenário conceitual de “Pra Gente Se Acabar”.

Mas o álbum não se entrega ao pessimismo.

A banda escolhe transformar a possibilidade do fim em baile. A expressão “pra gente se acabar” aparece justamente nesse sentido brasileiro de entrega total à festa, à dança e à celebração.

É nesse contraste que o trabalho se sustenta: existe o medo do encerramento, mas também existe a vontade de aproveitar cada instante.

Do balanço ao mergulho emocional

Musicalmente, o novo trabalho reúne a experiência acumulada pelo grupo durante mais de uma década. A sonoridade transita pela música popular brasileira, ritmos latinos e jazz, mantendo a formação numerosa como uma das principais características da banda.

Entre as referências que atravessam o disco estão nomes como Marku Ribas e Sade, enquanto as letras passam por assuntos como saúde mental, especulação imobiliária, paixões, saudade, angústias e as contradições do presente.

O resultado é um álbum pensado para funcionar em diferentes camadas: dá para dançar, mas também existe espaço para ouvir com atenção e perceber os detalhes espalhados pelas canções.

A produção é assinada por Marcos Maurício, parceiro antigo da banda, que já havia trabalhado com o grupo em “Madurar”, álbum de estreia indicado ao 28º Prêmio da Música Brasileira, e em “Ditados Populares Dançantes”, que apareceu entre os 50 melhores discos do ano na lista da APCA.

A novidade desta vez é que Samuel Samuca também assume a coprodução, dividindo a função com Marcos Maurício.

Carlos Dafé abre o baile

A primeira faixa apresentada ao público é “O Tempo Leva”, um boogie brasileiro que transforma a passagem do tempo em tema central.

Para dividir os vocais com Samuca, o grupo convidou Carlos Dafé, um dos grandes nomes do soul brasileiro. A participação cria um encontro entre diferentes gerações da música nacional e reforça a ideia de que o tempo também pode ser fonte de aprendizado, cura e tranquilidade.

A presença de Dafé ganha ainda mais significado dentro do conceito do álbum, que olha para o passado sem deixar de questionar o que vem pela frente.

Silvia Machete e Abacaxepa entram na Selva

As participações especiais continuam em outras faixas do disco.

Em “Teia de Aranha”, a banda recebe Silvia Machete, em uma performance que explora a personalidade irreverente da artista e aparece entre os momentos mais marcantes do repertório.

Já “Flor do Mistério”, parceria de Samuca com Felipe El, ganha as vozes de Bruna Alimonda, Carol Cavesso e Rodrigo Mancusi, integrantes do Abacaxepa.

Além da participação na faixa, o trio também aparece nos backing vocals de todo o álbum, funcionando como uma espécie de coro ao longo da experiência sonora.

E existe ainda uma participação especialmente afetiva logo na abertura.

A voz que vem da família

Antes mesmo da primeira faixa oficial, o álbum começa com “Bença”, uma introdução bônus interpretada por Dona Deborah, avó de Samuca, aos 93 anos.

A presença dela tem um significado que vai além da música. Segundo o vocalista, foi justamente a avó quem o inspirou a cantar.

Por isso, colocar sua voz na abertura do disco transforma “Bença” em uma espécie de passagem simbólica para todo o conceito de “Pra Gente Se Acabar”.

Uma bênção para começar — e talvez também para encerrar um ciclo.

Um álbum feito no tempo e na coletividade

O processo de criação durou 11 meses e seguiu uma filosofia simples: “menos produto, mais arte”.

O grupo começou o projeto a partir de uma conversa coletiva de aproximadamente seis horas, reunindo os integrantes e o produtor Marcos Maurício para discutir o futuro da banda, as possibilidades financeiras e a disponibilidade de cada músico.

Durante o processo, o percussionista Matheus Prado deixou o grupo para se dedicar aos próprios projetos, enquanto Dominique Vieira chegou para integrar a formação.

A gravação aconteceu na casa de Marcos Maurício, em um processo descrito pela banda como artesanal, marcado por madrugadas de gravação, escuta, ajustes e pesquisa de referências.

Essa proposta também aparece na parte visual. A capa é uma pintura a óleo do artista plástico SANTVS, que mistura elementos ligados à fé, ao medo, ao sagrado, ao profano, ao fim e à festa.

As fotografias são de Kim Costa, enquanto Laercio Lopo, diretor de arte da banda desde 2023, assina a diagramação e a identidade visual.

O último baile ganha imagens

A experiência de “Pra Gente Se Acabar” também ultrapassa o áudio.

Cada uma das 13 faixas ganhou um visualizer, formando uma espécie de narrativa audiovisual sobre um grande baile que representa a própria sociedade.

Os vídeos apresentam diferentes personagens e situações, explorando contrastes como virtude e decadência, medo e esperança, luxo e pobreza.

A direção criativa é de Bruna Massarelli e Júlio Viela, com produção da Outros Filmes, direção de Manoel Marques da Costa, fotografia de Luiz Maudonett e figurinos de Mayna Pozzi.

Os visualizers estão disponíveis no canal da banda no YouTube.

O que vem depois?

É justamente aqui que o álbum ganha sua camada mais delicada.

O futuro de Samuca e a Selva ainda não está definido. A possibilidade de encerramento existe, mas o grupo pretende aproveitar o ciclo de lançamento para conversar, ouvir os fãs e trocar ideias com outros artistas e bandas.

A experiência de produzir o álbum, inclusive, acabou aproximando ainda mais os integrantes.

Depois de mais de uma década de shows, suor, dança e “pélvis solta”, o coletivo agora encara o próprio futuro sem esconder as dificuldades.

Se “Pra Gente Se Acabar” será realmente o último capítulo, ainda não se sabe.

Por enquanto, a banda escolhe fazer aquilo que sempre soube fazer: transformar música em encontro e o caos em festa.

E, enquanto houver canção, talvez ainda exista um novo baile esperando para começar.

Foto: Divulgação

Tracklist — “Pra Gente Se Acabar”

  1. Bença — faixa bônus de introdução, com Dona Deborah
  2. O Tempo Leva feat. Carlos Dafé — Samuel Samuca
  3. Esse Tempo Todo / Apedrejado — Allan Spirandelli / Samuel Samuca
  4. Sobre a Natureza das Coisas — Samuel Samuca
  5. Não É Só Sobre Você — Samuel Samuca
  6. Flor do Mistério feat. Abacaxepa — Felipe El / Samuel Samuca
  7. Teia de Aranha feat. Silvia Machete — Lucas Bernoldi
  8. Pião — Samuel Samuca
  9. Se Eu Tô, Eu Tô — Allan Spirandelli
  10. Baila Comigo Meu Irmão — Samuel Samuca
  11. Vem Verde Perto — Léo Malagrino
  12. Rio e Feito um Rio Choro — Samuel Samuca
  13. Saia — Samuel Samuca
  14. Pra Gente Se Acabar — Samuel Samuca (Bônus)
Foto: Divulgação

Gustavo Farias

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