Rafaela Sahyoun estreia “Trovão em Terra Molhada” e transforma o corpo em espaço

Novo solo da coreógrafa e bailarina investiga os impactos da aceleração do mundo contemporâneo e convida o público para uma experiência sensorial
Após se destacar como uma das importantes criadoras da dança contemporânea brasileira, com trabalhos desenvolvidos para o Balé da Cidade de São Paulo, Rafaela Sahyoun retorna aos palcos como criadora-intérprete com o solo “Trovão em Terra Molhada”. A obra será apresentada entre os dias 25 de junho e 3 de julho, no Centro da Terra, em São Paulo.
Criado a partir de uma dramaturgia sinestésica em parceria com Iaci Lomonaco, o espetáculo propõe uma investigação sobre os efeitos da aceleração constante da vida moderna e como esse ritmo influencia a relação das pessoas com seus próprios corpos.
A performance parte da percepção de que a sociedade atual vive cercada por excesso de informações, estímulos e cobranças, criando um estado permanente de alerta. Para Rafaela, essa dinâmica faz com que muitas experiências não tenham tempo de serem assimiladas completamente.
“Se vivemos em estado crônico de vigília, entre alertas e a gestão algorítmica da catástrofe, algo se perde nas microfissuras dessa tensão contínua: fragmentos de experiência que não chegam a assentar no corpo”, explica a artista.
O próprio título da obra carrega uma importante metáfora. O trovão representa a descarga de uma energia acumulada, enquanto a terra molhada simboliza absorção, transformação e renovação. A união dessas imagens revela a proposta central do espetáculo: compreender o corpo como um território capaz de receber impactos, processá-los e produzir novas formas de existência.
Em cena, Rafaela busca criar uma conexão profunda com o público, indo além da observação dos movimentos. A intenção é despertar sensações, memórias e diferentes estados de percepção durante a experiência.
“Vivemos em um contexto de aceleração, excesso de estímulos e fragmentação da atenção que muitas vezes nos afasta das nossas percepções mais sutis. A obra convida o público a observar não apenas a dança, mas também aquilo que acontece dentro de si”, afirma a coreógrafa.
Inspirada por reflexões contemporâneas, incluindo o pensamento da filósofa Donna Haraway, a artista propõe uma investigação sobre como permanecer presente diante dos desafios de um mundo marcado pela velocidade e pela sobrecarga.
“Habitamos um sistema econômico que depende da produtividade incessante e da captura constante da atenção. Recebemos impactos sucessivos sem tempo para escutá-los, elaborá-los ou integrá-los”, comenta Rafaela.
Entre tensão e renovação, “Trovão em Terra Molhada” transforma a dança em um espaço de escuta e ressonância. O espetáculo convida o público a refletir sobre o tempo, o corpo e as possibilidades de recuperar formas mais sensíveis de estar no mundo.

