Gabriel Contente transforma o luto pela mãe em curta-metragem sobre memória e saudade

Dirigido pelo ator ao lado de Bruna Diacoyannis, “Aqui Comem os Pombos” será exibido no Rio de Janeiro em sessão especial que também resgata um clássico do cinema nacional.
A arte como caminho para elaborar a saudade e preservar as lembranças é o ponto de partida de “Aqui Comem os Pombos”, curta-metragem criado pelo ator Gabriel Contente como uma homenagem à mãe, falecida em junho de 2025. Com direção assinada por Gabriel e Bruna Diacoyannis, o filme terá uma sessão especial no dia 21 de outubro, às 17h, no Cine Macunaíma, localizado na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no Centro do Rio de Janeiro.
A exibição integra uma programação que também inclui “Também Somos Irmãos”, clássico do cinema brasileiro escrito por Alinor Azevedo, bisavô de Gabriel, e um debate com o pesquisador e historiador de cinema Luís Alberto Rocha Melo. O encontro aproxima a produção contemporânea das memórias familiares do ator e da preservação da história audiovisual brasileira.
Um filme sobre as diferentes formas de sentir a ausência
Em “Aqui Comem os Pombos”, Gabriel interpreta um jovem que observa a paisagem de uma praia enquanto percorre pensamentos, sentimentos e recordações relacionados à ausência de alguém importante em sua vida. Entre o mar, o céu, a areia e os pequenos acontecimentos ao redor, o personagem atravessa um dia aparentemente comum, revelando um universo interior marcado pela saudade.
A atriz Letícia Canavalle também participa do curta. Além de dividir cenas com Gabriel, ela tem um papel especial na trajetória do artista: foi sua primeira professora de teatro e, segundo ele, representa uma figura materna em sua formação artística. A parceria também reforça o reencontro do ator com suas origens no teatro.
A inspiração para o projeto vem de uma experiência pessoal. Antes de falecer, a mãe de Gabriel enfrentou uma doença neurodegenerativa que comprometeu progressivamente suas capacidades cognitivas e sua interação com o mundo. A vivência levou o ator a refletir sobre uma forma de perda que pode começar antes da despedida definitiva, quando a presença de alguém querido se transforma ao longo do tempo.
“A concepção deste curta-metragem veio do desejo pessoal de homenagear minha mãe, a pessoa mais importante da minha vida”, conta Gabriel.
Ao recordar esse período, o artista também destaca a complexidade de acompanhar as mudanças provocadas pela doença. “Muito pior do que o luto da morte é o luto por uma pessoa que ainda está viva”, afirma.

A praia como cenário de lembranças
A Praia do Leme, no Rio de Janeiro, ocupa um lugar importante na construção do filme. O espaço, associado a memórias afetivas compartilhadas entre Gabriel e a mãe, tornou-se o cenário ideal para traduzir em imagens os sentimentos que deram origem ao projeto.
Foi ali que o ator observou uma cena cotidiana que acabaria inspirando o título da obra: pombos procurando alimento entre os pequenos resíduos deixados pelo mar na areia.
“Pela primeira vez, observei a linha das ondas e notei que os pombos comiam, ali mesmo, as coisinhas deixadas pelo mar”, relembra.
A partir dessa imagem, o curta desenvolve uma narrativa contemplativa, construída por pensamentos e lembranças que surgem de maneira fragmentada. Em vez de explicar o luto de forma direta, a produção aposta na força das imagens, nas sensações e nos detalhes da natureza para abordar a fragilidade, a passagem do tempo e a permanência dos vínculos afetivos.
Mais do que registrar uma experiência individual, “Aqui Comem os Pombos” propõe uma reflexão sobre como cada pessoa atravessa a ausência e encontra maneiras de manter vivas as memórias de quem fez parte de sua história.
Clássico do cinema brasileiro integra a programação
A sessão também abre espaço para revisitar “Também Somos Irmãos”, filme de 1949 dirigido por José Carlos Burle e escrito por Alinor Azevedo. A produção é protagonizada por Grande Otelo e Agnaldo Camargo e apresenta uma abordagem crítica de questões sociais e raciais no Brasil.
A escolha da obra tem um significado especial para Gabriel, que busca ampliar o reconhecimento do trabalho de seu bisavô e aproximar o público de um título importante da cinematografia nacional.
“A ideia de trazer especificamente este filme para nosso evento é, antes de tudo, pela proposta crítica e bem-humorada que traduzem o trabalho de meu bisavô, Alinor”, explica o ator.
Gabriel também destaca a importância dos protagonistas e de suas trajetórias artísticas. Grande Otelo foi um dos nomes mais emblemáticos do cinema brasileiro, enquanto Agnaldo Camargo teve atuação relevante no Teatro Experimental do Negro, movimento fundamental para a valorização de artistas negros e para o debate racial nas artes cênicas brasileiras.
A exibição será seguida de uma conversa com o pesquisador e historiador de cinema Luís Alberto Rocha Melo, criando uma oportunidade para discutir o legado do filme e sua relevância histórica. A iniciativa também reforça a importância de recuperar obras que nem sempre recebem a atenção que merecem do grande público.
A trajetória de Gabriel Contente
Formado pela Casa das Artes de Laranjeiras (CAL) e graduado em Licenciatura em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), Gabriel Contente construiu uma carreira que transita entre televisão, cinema e teatro. Como dramaturgo, estreou em 2017 com a peça “Natal” e acumula outras quatro dramaturgias em seu currículo.
Na televisão, participou de produções como “Malhação: Vidas Brasileiras”, “Bom Sucesso”, “Vai na Fé” e “Totalmente Demais”, da TV Globo. No cinema e no streaming, integrou os elencos de “Intimidade entre Estranhos”, dirigido por Zé Alvarenga, “Lulli”, da Netflix, “Um Ano Inesquecível: Primavera”, do Prime Video, e “Nosso Tudo Bem”, lançado no YouTube.
No teatro, interpretou Harry Potter no musical “A Very Potter Musical”, dirigido por Julio Ângelo, e participou de montagens sob a direção de profissionais como Bruce Gomlevsky, Eber Inácio e Anderson Aníbal. Um de seus trabalhos recentes foi a peça “O Legado”, de Renato Farias, com a Companhia de Teatro Íntimo, apresentada no Sesc Copacabana.
Em 2026, Gabriel também trabalha em um documentário sobre o cabaré no século XXI, a partir da popularização do Buraco da Lacraia, e integra o elenco do filme “Guido”, sobre a vida de Guido Schäffer, surfista e seminarista que morreu no mar. O longa tem lançamento previsto para 2027, na Netflix, conforme as informações divulgadas pela produção.
Com “Aqui Comem os Pombos”, o ator acrescenta à sua trajetória um trabalho que nasce de uma vivência íntima e encontra no cinema uma forma de expressão. Ao unir memória pessoal, poesia visual e reflexão sobre a ausência, Gabriel transforma sua homenagem em uma experiência que também pode dialogar com as lembranças e os sentimentos do público.
Serviço
Evento: Exibição de “Aqui Comem os Pombos” e “Também Somos Irmãos”, seguida de debate com Luís Alberto Rocha Melo.
Data: 21 de outubro de 2026, quarta-feira.
Horário: 17h.
Local: Cine Macunaíma — Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Auditório da ABI, 9º andar.
Endereço: Rua Araújo Porto Alegre, 71, Centro, Rio de Janeiro (RJ).
Entrada: Gratuita.

