CRÍTICA | Entre o caos e a poesia, “Poim” transforma traumas em uma experiência inesquecível na peça “Os sapatos que deixei pelo caminho”

A peça é caótica e melancólica na medida certa. Seja nos momentos longos e angustiantes ou no caos de cenas que representam a fase trabalhadora de Poim, o espetáculo prende a atenção do público de forma impressionante. A identificação que senti com o personagem é um capítulo à parte: a história resgata a força e a persistência, mas também expõe, de maneira crua, suas feridas e traumas.
O mais impressionante é a forma como Poim se desdobra em diferentes perspectivas. Quatro atores dão vida ao mesmo personagem, compartilhando sentimentos, emoções e dores em uma construção coletiva, enquanto as metáforas permeiam toda a narrativa e estimulam ainda mais a imaginação do público.
A mistura entre o digital, o analógico e os objetos cênicos também merece destaque. Em um momento, estamos acompanhando uma projeção no telão e, de repente, percebemos que tudo faz parte de um jogo de luzes que revela uma nova personagem dançando atrás da tela. A iluminação dá peso ao ambiente do escritório e, logo depois, revela um verdadeiro mar de folhas, sapatos e objetos espalhados pelo palco. Pouco depois, ela faz tudo desaparecer enquanto observamos o passado do personagem ganhar vida por meio de fantoches.
Toda essa combinação de recursos cria uma atmosfera em que o inesperado surge justamente nos momentos mais cotidianos, transformando situações comuns em imagens surpreendentes. É uma experiência sensível, inventiva e visualmente marcante, que faz de Poim um espetáculo capaz de emocionar, provocar reflexões e permanecer na memória do público muito depois do fim da apresentação.
Crítica feita por Vinicius Ferreira.

